
Tem sido um ano terrível para a Ópera.
Perguntaram a Maria Callas o que era a Ópera. A resposta foi rápida e curta : "Verdi".

Tempos houve, em que a Ópera era bem tratada em Portugal.
Anualmente, publicavam-se com antecedência, sabida a programação da temporada, os “libretos”, dando assim a conhecer os enredos, para mais fácil compreensão dos que não os conheciam.
E era uma casa editorial do Porto que se encarregava da tarefa.
Não havia Internet, nem rádio ou televisão. E apesar de a esmagadora maioria dos cidadãos ser analfabeta, nem por isso se abandonava a preocupação de chegar ao maior número possível de potenciais interessados.
Outros tempos…

Ontem, no Grande Auditório da Gulbenkian, fez-se História.
Pela primeira vez em Portugal, uma transmissão em HD de uma ópera do MET.
Ainda que em diferido. Outras virão em directo.
“O Ouro do Reno”, para começar. Bryn Terfel cabeça de cartaz.
Que dizer?
Destacaria pela positiva: James Levine, a Orquestra, Robert Lapage e Eric Owens.
Isto é, o Maestro e os seus Músicos, a encenação e Alberich.
E se a qualidade de Levine apenas poderia ser questionada dados os seus recentes problemas de saúde, bem depressa nos apercebemos que aquele Levine, à frente desta Orquestra há quatro décadas, está em pleno. Mas a grande questão que se colocava era a encenação. Habitualmente, “reajo” mal a modernismos cénicos, mas este trabalho de Lepage agradou-me. Gostei.
Pode ter acontecido que Wagner tenha dado alguns saltos no sepulcro, por pensar que se estava a distrair o público da acção principal. Mas gostei.
Eric Owens, no Alberich, foi simplesmente “the best on the screen”. Voz poderosa, interpretação magnífica, “encheu” o palco. Muito bem!
Então e o resto? Terfel? Fasolt e Fafner? Fricka?
Terfel foi, na minha opinião, a desilusão completa. O seu Wotan é vulgar, sairá rapidamente da memória dos que viram e ouviram. Sem chama, sem alma. Que saudades tive de Donald McIntyre, por exemplo… Os “gigantes” foram banais, para não dizer fracos. A Fricka de Stephanie Blythe esteve bem vocalmente, mas…não se pode ver sem um ligeiro sorriso, dado o peso da cantora.
No final, alguma sensação de espectáculo mediano.
Fez-se história, mas não pelas melhores razões.
Foi pena.

