sexta-feira, 6 de abril de 2007

"A Flauta Mágica" em Cinema


Kenneth Branagh, actor e realizador irlandês que todos os cinéfilos conhecem, acaba de ousar penetrar no “reino” da Ópera, e estrear, em Barcelona, a sua versão de “A Flauta Mágica”.
Não é novidade transportar para as telas óperas célebres, e belos exemplos foram Ingmar Bergman, exactamente nesta ópera e Joseph Losey com o seu famoso “Don Giovanni”. E essas foram precisamente as excepções ao fiasco.
Fiasco que a crítica catalã bem tem sublinhado nesta obra de Branagh, que não consegue convencer nem os amantes do cinema nem os da Ópera.
A acção do filme decorre na I Grande Guerra, sendo Tamino um soldado com duas lutas simultâneas: o amor de Pamina e a paz universal.
Mas o problema não é esse.
O próprio realizador confessa que é um “novato” no mundo da lírica, e os críticos sublinham e avisam-no que ópera não é meramente uma sucessão de árias…
Apesar de tudo, vamos esperar que o filme chegue a Lisboa.
Chegará?

12 comentários:

teresamaremar disse...

Flautas Mágicas...
Delas se fala em minha casa... :)

Teresa disse...

José, eis-me de regresso.

Confesso a minha aversão às visões refrescadas das óperas, mais ainda se elas forem de Mozart (não é em vão que ele é o primeiro Homem da Minha Vida!). Já traguei cada purga! A única excepção que abro é às concepções do Peter Sellars, que me põem a rir como uma doida. O meu amigo Victor viu em Berlim um Idomeneo que se passava... no estúdio de um fotógrafo!

Certas casas de ópera têm a mania de nos impingir essas versões artísticas. Eu cá gosto de um Papageno emplumado e tonto, gosto que as Bodas de Figaro se passem como foram concebidas por Mozart e pelo Da Ponte e não na Trump Tower em NY...

Um beijo.

Anónimo disse...

Teresa,
A respeito de encenações estou 100% de acordo consigo. Hoje, quando lemos a crítica a um espectáculo de ópera, a maior percentagem de linhas vai para a tirânica encenação e à voz reservam-lhe umas linhas. Curiosamente e a propósito de umas críticas pontuais, o mais famoso dos críticos britânicos, John Steane, autor de bibliografia fundamental sobre ópera e regular comentador na Gramophone, fazia esses cálculos e encontrava o número de 6% para a crítica apontada para a voz.
Raul Andrade Pissarra

Teresa disse...

Pois é, Raul. E depois das vozes diz-se muito pouco! Isso fez-me lembrar uma vez, há coisa de dez anos, que ouvi a Katia Ricciarelli no CCB. A voz, que já foi linda, ou estava numa noite muito infeliz ou já tinha mesmo entrado na curva descendente (tudo o que tenho com ela é bastante anterior, não posso comparar). Atrás de mim estava um casal gay a aplaudir furiosamente, com um grande estrondo de Bravo! (sabemos que deve ser Brava...), não pude deixar de estranhar, e voltei-me. Um deles encarou-me, encolheu os ombros, e com aquela graça tão peculiar dos gay disse como justificação:

- É p'la carreira!

Confesso que me desmanchei a rir. Se era p'la carreira, a conversa era outra!

Encenações estúpidas? Estou a lembrar-me de uma Tosca em S. Carlois com a Anna Tomowa-Sintow (que passava calmamente por avó do Cavaradossi, mas a voz ainda estava óptima)que se passava na Itália de Mussolini. O Cavaradossi era fuzilado sentado numa cadeira, de costas para oi pelotão, coisa que me deixou perplexa. Quando mais tarde fui aos bastidores cumprimentar os conhecidos (tenho uma grande amiga que é adjunta de direcção de cena), não resisti a perguntar-lhe o significado daquilo. Ao que parece, um espertalhaço qualquer tinha descoberto que na Itália de Mussolini as execuções eram assim. Nem me dei ao trabalho de ir verificar. Estas coisas irritam-me.

O Don Giovanni do Peter Sellars é um dealer de heroína, a acção passa-se no Harlem, a Donna Elvira anda sempre atrás dele porque precisa da sua dose diária... e por aí fora. O Don e o Leporello são cantados por dois gémeos idênticos, o que resulta muito eficaz na troca de identidades...

jose quintela soares disse...

Olá Teresa
Olá Raul

Pois é, longe vão os tempos em que o S.Carlos se enchiam de estolas e peles cobrindo a "brigada do reumático" toda aperaltada, e que de ópera pouco ou nada percebia...
Era raríssimo haver uma pateada, até porque mesmo que os cantores estivessem mal, mais de metade do público não dava por isso, porque tinha adormecido...
A Ópera não era para ser vista e ouvida...era para mostrar as "toilettes"...
As novas encenações chocam por vezes os mais "tradicionalistas", mas como em tudo na vida, há bom e mau.
Gosto muito do Sellars, inteligente, não desvirtuando o verdadeiro sentido que o autor entendeu dar a cada ópera.
A Ricciarelli desapareceu muito por culpa do Karajan... Sabem porquê?

Obrigado pelos vossos comentários.

jose quintela soares disse...

Onde se lê "enchiam", façam o favor de ler o singular "enchia".

Lapsos...peço desculpa.

Teresa disse...

José,

Não sei e QUERO saber!! Toca a contar, se faz favor. O Karajan (maestro genial, sem dúvida) tem enormes culpas no cartório no que toca àquilo em que se transformou o mundo da música clássica e da ópera. A si e ao Raul recomendo o fascinante Who Killed Classical Music? do Norman Lebrecht.

Anónimo disse...

Teresa,
Eu vi a Tomowa-Sintow na Tosca aqui em Macau, talvez há uns 10 anos. Já só alguns lances e o seu belo timbre. Na altura escrevi para um dos jornais locais, mas já não me lembro do que disse. Foi uma grande cantora, muito eclética.
Das encenações que detestei foi um Don Giovanni há uns 7 anos no S. Carlos. Vinha de Genève. Os movimentos dos cantores era idêntico ao de uns fantoches. Para isso prefiro versões de concerto.
A Ricciarelli ? Um belo começo e depois a voz feita em pedaços, culpa em parte, como o José diz, do Karajan, que a pôs a cantar tudo. Até a Turandot se atreveu a cantar !?

José,
Também eu gosto de Sellars, mas o problema é que nem todos tem o seu talento e gosto.
Quanto às pateadas no S.Carlos, está o José a imaginar o pó que levantaria !? Dizia-se que no tempo do antigo S. Carlos, os verdadeiros apreciadores de ópera estavam no Coliseu. Talvez, não sei.

Raul

Teresa disse...

Raul,

Julgo que esse Don Giovanni em S. Carlos a que se refere tenha sido em 1998 (só não vou jurar... porque a Tomowa-Sintow não entrava). Pela sua descrição, a produção é a mesma. DETESTEI. E eliminaram o maravilhoso Mi Tradì, o que me deixou furibunda. Também eu prefiro mil vezes uma boa versão de concerto a uma produção modernaça ou, como eu costumo dizer... com mensagem.

Em 1995 houve no CCB uma gloriosa Flauta Mágina em versão concerto dirigida pelo Gardiner.

Quanto às pateadas... no mundo germânico o significado é bem diferente. Em Munique, por exemplo, os fortes aplausos são acompanhados de bater de pés no chão. E é uma delícia ver as senhoras de traje bávaro e os homens com as suas belas austríacas de lapelas de veludo...

Anónimo disse...

Teresa,
Eu vi essa Flauta Mágica. Também adorei. A encenação ? Pura magia. Foi no Verão. Estava um dia lindo!
Raul
P.S.
Eu não disse que a Tomowa-Sintow entrava nesse Don Giovanni ! Tinha bom elenco e entre os cantores a Dona Elvira era a agora famosa Barbara Fritoli.
Há uma péssima tradição de cortar o Mi tradi em muitas representações. No ano passado vi o Don Giovanni em Hong Kong, numa encenação minimalista (uma grande pauta e uns cubos grandes tipo jardim-infantil!!!), onde além de cortarem o Mi tradi tiveram a "ousadia" de cortar também o Della sua pace.
Raul

jose quintela soares disse...

Pois é, o Karajan "estragou" a Ricciarelli porque a pôs a cantar papéis que a sua bela voz não suportava...e ela foi nisso, coitada...e acabou.
Karajan tentou fazer o mesmo com a Mirella Freni, mas aí não teve sorte nenhuma, porque o soprano de Modena sempre soube gerir muito bem a sua carreira, escolhendo as óperas com critério rigoroso.

Teresa disse...

Raul,
Era Verão, sim - a minha récita foi a de 29 de Junho, quarta fila ao centro, que eu sou uma esquisita do pior com os lugares e desde que a notícia saiu nos jornais telefonava diariamente para a bilheteira para me certificar de que conseguia comprar os bilhetes no dia da abertura, para poder escolher à minha vontade. O Gardinar estava mesmo à minha frente, a uns quatro ou cinco metros, de camisa preta, como toda a orquestra. Guardei a crítica que saiu no Público, vou procurá-la, digitalizá-la e partilhá-la aqui convosco. Foi uma noite... MÁGICA. Saí de lá em estado de graça. Só a Rainha da Noite não me agradou a cem por cento. Acredita que nesse dia pedi dispensa no trabalho à tarde, de tão excitada que estava?

José,
Infelizmente há mesmo muitos cantores a quem falta esse discernimento que a nossa querida Freni graças a Deus teve.

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