segunda-feira, 21 de abril de 2008

As Óperas de Wagner (4)

E chegamos à grande tetralogia de “O Anel dos Nibelungos”.
A primeira ideia de Wagner fora escrever um único drama, que se chamaria “A Morte de Siegfried”, mas acabou por descobrir que a história necessitava de tantas explicações que precisava de escrever outra ópera como prólogo. Este impunha a necessidade de outro e de novo de outro ainda, de forma que os quatro dramas de “O Anel” acabaram por ser escritos na sequência inversa da sua ordem natural.
Durante os anos em que Wagner se ocupou desta tarefa, a sua maneira de pensar foi-se modificando, de forma a que a última ópera da tetralogia é muito mais à velha maneira do que a primeira. O suicídio da heroína, que se lança, a cavalo, na pira ardente do funeral do seu marido, lembra-nos imediatamente a “Fenella” de Auber, no seu salto para a cratera do Vesúvio, e “A Judia” de Halévy, que se precipita para dentro dum caldeirão de azeite a ferver; quanto à destruição final do Palácio é de relembrar o incêndio semelhante da “Lodoiska” de Cherubini, ópera frequentemente representada na Alemanha, quando Wagner era jovem. O mergulho de Hagen no Reno em inundação tem também o seu paralelo em várias óperas francesas antigas. Wagner, com a sua habitual agudeza de visão para os grandiosos efeitos cénicos, apenas combinou num só, três finais do velho arsenal de epílogos.
Para além disso, o compositor estava cada vez mais obcecado pela grandeza das suas ideias. À medida que “O Anel” se ia alargando na sua concepção, Wagner teve a percepção clara de que nunca poderia ser representado, a menos que pudesse vir a construir um teatro seu. O que viria a acontecer em Bayreuth, pequena cidade perto de Nuremberga.
Não resisto a relembrar aqui que a locutora Maria Elisa, há uns anos, referia-se a "Beirute" como o local do teatro de Wagner....
Voltando ao “Anel” e para os menos conhecedores, ele é constituído pelas óperas “O Ouro do Reno”, “A Valquíria”, “Siegfried”, e “O Crepúsculo dos Deuses”.
A primeira é “O Ouro do Reno”, que Wagner compôs entre 1853 e 1854, mas que só teria a sua primeira representação em 1869, em Munique.
Vamos ouvir “Schau, du Schelm!”, com Karajan.

5 comentários:

teresamaremar disse...

Ordem, desordem e poder.
Gnomos e gigantes, humanos e deuses, em desordem.
E o feminino. Por um lado, as deusas, a figura protectora; por outro, as ninfas, o feminino imprudente.
À luz da Revolução Francesa de 1848, Wagner revoluciona a ordem. O Anel fala das forças da natureza fora da ordem.

O anel. O poder. A luta pela posse.
o compositor estava cada vez mais obcecado pela grandeza das suas ideias
e sai vencedor porque, nO Anel, enquanto obra de arte total, todas as artes e elementos intervêm (drama, texto, orquestra, vozes, cenários) e convergem no sentido da unidade.
E a narrativa convergindo para o sentido primeiro, o crescimento do Homem.

geocrusoe disse...

para mim este excerto de música representa uma das descidas ao "submundo infernal" mais belas que conheço... espero que disserte musicalmente mais um pouco pelos outros 3 episódios restantes do anel...

Hugo Santos disse...

As personagens do Anel não são mais do que o reflexo da Humanidade com os seus desejos, anseios, dúvidas, inseguranças, medos e vontades. Para o bem e para o mal. Uma obra que verdadeiramente espelha a alma humana.

Anónimo disse...

Essa do Beirute é de rir a bandeiras despregadas: ainda se fosse Tiro... Eu julgo mesmo que Maria Elisa foi administradora da Gulbenkian nos anos 90, não foi? Lá está a tal vontade Nietzchesiana de poder, o anel e raio que parta esta vergonha nacional toda! E com este pilar da cepa torna a apresentar o "Maior português de sempre" não admira pois que ganhe Salazar.

Rui Cavaco (Barreiro)

Anónimo disse...

Esqueceu-se de referir a homenagem que Wagner faz ao sublime final da Norma de Bellini, muito mais presente que a Lodoiska e a Judia, óperas que por serem tipo "grand opera" , para Wagner não tinham substância. É ver a opinião que ele tinha de Meyerbeer.
Samuel

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