Podia-se gabar de ter sido a única cantora de ópera retratada por Salvador
Dali.
Há quem diga que o seu timbre nunca foi igualado por nenhum
soprano alemão.
Embora aos 12 anos já cantasse a “Gretel”, estreou-se oficialmente aos 21 como
“Pamina”, e durante muitos e muitos anos nenhuma “Pamina” ou “Eva” (“Mestres
Cantores”) foi considerada melhor.
Após a guerra de 14-18 decidiu mudar-se para os Estados Unidos, e em Chicago,
depois de dois casamentos anteriores, o primeiro com um escritor que não passou
do anonimato, o segundo com o actor Hans Albers, Claire Dux casou com o
milionário Charles Swift, marcando claramente o fim da sua notável carreira.
Começou como cantora de café-concerto, tornando-se muito conhecida não apenas
pelo seu talento, mas também, ou principalmente, pelos dotes físicos.
Caprichosa e inteligente, juntou uma enorme fortuna, fruto de relações com
homens poderosos e ricos, chegando a assinar um contracto com um deles, da família
Astor, que lhe rendeu todos os seus bens em troca de uma semana de casamento
legal. E assim foi…
A sua estreia em palcos de ópera sucede em Lisboa, na temporada de 1899-1900,
cantando a “Nedda” dos “Palhaços”.
No excelente livro “O Teatro de S.Carlos – Dois Séculos de História” de Mário
Moreau, podemos ler:
“Lina Cavalieri era uma mulher de beleza deslumbrante, mas, no que respeita a
dotes vocais, parece que o deslumbramento causado já não era precisamente o
mesmo. Em todo o caso, na referida noite ainda foi aplaudida, embora tivesse
ouvido manifestações de desagrado, incluindo risos e gritos de troça. No dia
seguinte, porém, as coisas pioraram muito. O público, continuando a manifestar
a sua agressividade, vaiou a cantora, cuja actuação não foi satisfatória nem
poderia ter sido, depois da hostilidade da véspera. Indignada e
psicologicamente incapaz de prosseguir a representação, Lina Cavalieri
retirou-se da cena no meio de uma algazarra infernal que se prolongou por
alguns minutos, ao cabo dos quais o espectáculo pôde prosseguir, agorqa com a
cantora Amalia De Roma”.
Interpretou a “Manon Lescaut” no primeiro filme mudo sobre uma ópera. Não se
ouvia a sua voz, mas via-se a mulher, o que foi suficiente para as salas esgotarem
com facilidade.
Cavalieri, que foi considerada, à época, “a mulher mais bela
do mundo”, morreu na sua casa em Florença, em 1944, aquando de um
bombardeamento.
Foi ela quem estreeou várias óperas de Richard Strauss.
“Ariadne auf Naxos”, “Frau ohne Schatten”, “Salome”, e “Agyptisch Helena”.
Só…
Mas como não há “bela sem senão”, Jeritza comandou um “lobby” pro-nazi em
Hollywood. Casou inúmeras vezes, sempre com aristocratas e milionários.
Apesar disso e quando Strauss passava por dificuldades quando a guerra acabou, enviou-lhe muitas encomendas com comida, levando
o compositor a dedicar-lhe “September”, das suas “Four Last Songs”.
“Ela é o Sol!”, disse Lotte Lehmann, a sua eterna rival.
O público chorava sempre que ela interpretava "La Traviata".
Toscanini trouxe-a para o Scala, abrindo uma excepção, dado que era palco para cantoras italianas.
O seu olhar prendia a atenção, e o seu talento fazia o resto.
O "Liceo" acaba de comunicar o despedimento de 11 músicos titulares da sua Orquestra.
Há poucos dias, havia dispensado metade dos elementos do Coro.
Quando isto acontece em Barcelona, até agora um dos grandes "templos" mundiais da Ópera, é caso de evidente preocupação, ainda que estejamos, de há muito, habituados a cortes na Cultura.
Enquanto esta for considerada terreno fértil e fácil para emagrecimento nos custos, com alheamento de outras áreas onde porventura seria bem mais rentável a poupança, vamos mal. Muito mal.