terça-feira, 16 de outubro de 2007

Um "não" difícil

Recebi de um jovem apreciador de Ópera, um mail em que pedia a minha opinião sobre uma récita que o São Carlos vai produzir em breve, do “Rigoletto”. Está na dúvida se deve ou não ir.
Fiquei a pensar no pedido e na resposta que lhe dei.
Se o que pretendo, modestamente, com este blogue é divulgar a Ópera para todos, mas principalmente para os que a desconhecem por completo, e muitos são, nomeadamente os jovens, apeteceu-me responder, de imediato, “vá!”.
Se um jovem manifesta interesse pela Ópera, a ponto de estar informado sobre a programação do único teatro lírico desta cidade, onde a oferta cultural é imensa e multifacetada, mal parecia não lhe responder, de imediato, “vá!”,
Se eu sei que assistir ao vivo a uma Ópera é completamente diferente de ouvir num cd ou dvd, ou simplesmente na rádio, e que as oportunidades de o fazer, mesmo nesta cidade, são raras, ter-lhe-ia incutido, sem hesitações, o propósito de “ir”.

Não sei se ele seguirá ou não o meu conselho.
Mas a minha resposta foi “não vá”.

“Rigoletto” foi a primeira ópera gravada que tive, em LP, com um elenco de luxo de que faziam parte Ettore Bastianini, Renata Scotto, Alfredo Kraus e Fiorenza Cossotto.
Foi fácil apaixonar-me por esta obra.
Tinha 12 anos.
E foi igualmente o melhor caminho para me iniciar nas lides líricas, pois a partir daí fui aumentando a minha colecção, com Verdi muito bem representado.
Ao ler o mail deste jovem, pensei nisso.
Esta ópera tem árias espectaculares, que facilmente entram no ouvido, mesmo de um leigo, o que me parece, nem ser o caso em apreciação. É difícil não gostar de um “Rigoletto”.
Mas… os muitos anos que já percorri, de atenção ao que se vai passando nesta área, levaram-me, mesmo em frente às bilheteiras do São Carlos, a não comprar o meu bilhete.
Achei os elencos fracos. Fraquíssimos.
E leram bem, elencos, pois cada personagem tem dois cantores programados, um para a estreia e outro…para o resto. O que, sendo normal em teatros de Ópera, é neste caso muito preocupante, porque se nem as “primeiras” figuras o são…as “segundas” levantam sérias interrogações…
Sugeri-lhe antes um dvd.

Terei feito bem?
Em consciência, fiz.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Álvaro Malta


Posso estar enganado, mas penso que durante muitos anos, se pedissem numa qualquer rua portuguesa, a um qualquer cidadão, para referir um nome de um cantor lírico português, a resposta seria claramente Álvaro Malta.
Não porque o tivessem ouvido no Trindade, no São Carlos ou no Coliseu, mas porque era algumas vezes convidado pela RTP para comentar este ou aquele esporádico assunto relacionado com Ópera. E é verdade que muito poucos cantores portugueses actuaram tantas vezes em São Carlos.
Ainda hoje muitos se recordam de Álvaro Malta (nasceu em 1931), que aos 18 anos já fazia parte do Coro do nosso Teatro lírico.
A sua primeira apresentação em público data de 1951, cantando o “Requiem” de Mozart. E ao longo da sua brilhante carreira, cantou ao lado das grandes figuras, como Corelli, Gobbi, Christoff, Gedda, Crespin, Gorr e Di Stefano.
Este baixo português, para além da voz magnífica, era um excelente actor, o que nem sempre acontece, como já vimos, mesmo em cantores de nomeada internacional.
Fez o “Barão Douphol” na célebre “La Traviata” com Maria Callas em Lisboa, em Março de 1958.
A última vez que Malta cantou em público foi em 1989, uma “Serva Padrona” com Elsa Saque e Vasco Gil.
Quase 40 anos de Ópera.
Julgo que o lugar, ou vazio, que deixou, nunca foi preenchido.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Estolas e Ressonar...

“Se os amantes da ópera são tão apaixonados por uma coisa tão chata, eles que paguem mais pelos bilhetes. Em qualquer caso, muitos desses fanfarrões só vão à ópera como ocasião social de confraternizar com os seus igualmente privilegiados amigos”.

Esta a opinião enviada por um leitor ao jornal “Evening Standard” em 1995.

Perdoando a este detractor da ópera o apelidá-la de “coisa” e “chata”…lembrei-me das inúmeras estolas que se passeavam em enrugados pescoços pelos salões do São Carlos, nos intervalos, no tempo da outra senhora. Estolas que durante as récitas ajudavam as donas a mais facilmente dormir e até ressonar, o que é tão incomodativo como os crónicos e inevitáveis ataques de tosse e catarro, enquanto os pobres cantores bem tentam continuar concentrados.
Como certamente muitos saberão, após as récitas no São Carlos, levava-se a encenação para o velhinho Coliseu dos Recreios, onde o preço dos bilhetes tornava acessível o espectáculo a um público muito mais vasto. E conhecedor.
O grande Alfredo Kraus dizia mesmo que tinha muito mais receio de cantar no Coliseu do que em São Carlos, porque o mais leve deslize significava “pateada” no Coliseu, dado que “o público conhece a Ópera de um modo mais exigente”.
E assim era, de facto.

Voltando à carta do leitor, sabem porque é que os teatros de ópera têm todos a forma de uma ferradura? Por dois motivos: para limitar a distância do palco ao ponto mais afastado do auditório, e para que os detentores de camarotes se pudessem mostrar uns aos outros.
Ou seja, a carta não é infundada de todo.

(Fotografia do “Arquivo Fotográfico de Lisboa”)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Placido Domingo

A voz de Pavarotti é única. Ímpar.
Mas…há quem defenda que Placido Domingo (nasceu em 1941) é “o” tenor completo da sua geração, pois reúne todos os atributos necessários: voz, representação, presença.
E mesmo quando ambos estavam no apogeu, muitos preferiam Domingo.
Na verdade, o largo “leque” de óperas que já cantou, e que chega a Wagner, colocam-no entre os maiores tenores de todos os tempos. Indiscutível.
Estreou-se como barítono (Pascual em “Marina”) e como tal vai terminar a sua carreira em 2009, conforme já anunciou. Como tenor, aparece pela primeira vez em 1959 (Alfredo em “La Traviata”). E desde aí até hoje, o sucesso não parou.
Sabiam, por exemplo, que é seu o record de aberturas de época no MET? Aconteceu durante 21 (!) anos, superando Caruso.
É difícil para qualquer tenor celebrizar-se em papéis de ópera italiana e francesa, e brilhar em Bayreuth. Mas Placido Domingo conseguiu-o.
Veremos se a carreira de Maestro será tão bem sucedida.
Tenho sérias dúvidas, mas pelo menos, continuaremos a ver Domingo ligado à paixão da sua vida.


quarta-feira, 3 de outubro de 2007

"Vedetas"...

Angela Gheorghiu é, indiscutivelmente, um dos grandes sopranos actuais.
Mas hoje quero apenas fazer referência a uma notícia “a escaldar”.
A duas horas do ensaio geral de uma “La Bohème”, em Chicago, foi despedida e substituída por uma jovem ainda ilustre desconhecida.
Justificação da administração do teatro: faltou a seis dos dez ensaios.
Justificação da cantora: "conheço muito bem o papel e o meu marido precisava que estivesse mais tempo junto dele".

Ou seja…a candidata (?) a “diva” entende que não precisa muito de ensaiar…e talvez por isso esta situação de despedimento não seja inédita na sua ainda curta carreira.

Eu devo dizer claramente que detesto “vedetas”…. e faltas de humildade e profissionalismo.

sábado, 29 de setembro de 2007

Rita Streich


Rita Streich (1920-1987) foi um dos maiores sopranos “coloratura” da segunda metade do século passado.
Soprano “coloratura” significa que ornamenta o canto, de uma forma rápida, especialmente nos agudos. É aquilo a que se costuma chamar o canto “rouxinol”.
Russa, cresceu e viveu na Alemanha, tendo-se estreado durante a II Guerra Mundial no papel de Zerbinetta da ópera “Ariadne auf Axos”, de Strauss. E permanecerá em Berlim até 1952, quando surgem os convites para o La Scala, Bayreuth, Convent Garden, Salzburgo e Viena, isto é, para os grandes palcos europeus da Ópera.
E dado o seu tipo especial de voz, os seus sucessos foram tremendos nas operetas mais conhecidas.
Vamos ouvir Rita Streich em Donizetti.









terça-feira, 25 de setembro de 2007

Mirella Freni

É simultaneamente fácil e difícil escrever algo sobre uma das nossas cantoras preferidas. Desde sempre.
Mirella Freni, o grande soprano italiano da sua geração, cabeça-de-cartaz com Pavarotti, Placido Domingo e Carreras, uma geração dourada que dificilmente se repetirá.
Nasceu em 1935 em Modena, exactamente como Pavarotti. E com ele cantou um dos seus grandes êxitos, “La Bohème”, para mim a melhor de todas.
Mas Freni tem, para além disso, uma característica fora do vulgar: a gestão que fez da sua carreira, que lhe permitiu cantar até aos 64 anos, num nível elevado, com a “Fedora”.
Quem não tem, na sua discoteca, algumas das suas gravações?
“La Bohème”, “Madama Butterfly”, “Othello”, enfim, uma série enorme de óperas em que o seu talento é posto em evidência.
Foi casada com Leone Maggiera, grande maestro que muito a ajudou no princípio da sua carreira, e depois com o baixo Nicolai Ghiaurov, um nome que dispensa igualmente adjectivos.
Actualmente dá aulas de canto, e todos esperamos que consiga descobrir uma nova “Mimi”.


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