Para mim, “baixo”, quanto mais “baixo” melhor. Aquela voz quase cavernosa, grave, profunda, de que os búlgaros são os mais lídimos representantes. Mas também Tancredi Pasero (1893 – 1983) foi um desses, daí a minha enorme admiração por este italiano, que cantou em todo o mundo até 1953. O seu autor preferido era Verdi, e em “Simon Boccanegra”, “Don Carlo” e “Aida” deixou interpretações inolvidáveis. Há dois ou três cd dele. Experimentem ouvir. As gravações, apesar de antigas, têm uma qualidade bastante razoável. É simplesmente divinal.
Foi, seguramente, um dos grandes cantores na história da ópera, e considerado por muitos, nos anos 40,o melhor barítono italiano. Pessoalmente, e sem retirar qualquer mérito a Bechi, prefiro Gobbi. Gino Bechi estreou-se em 1936, como Germont em “La Traviata”. Pouco tempo depois, o célebre maestro Tullio Serafin ouviu-o e contratou-o para a Ópera de Roma, onde Bechi cantou muitos anos. Os seus maiores triunfos de então foram a “Aida” e os “Palhaços”, mas também a “Cavalleria Rusticana” e o “Rigoletto”. Há um episódio curioso passado no nosso S.Carlos que não posso deixar de referir aqui. O cantor era presença constante em Lisboa (mais tarde veio mesmo viver para Portugal), e numa récita do “Rigoletto”, nos anos 50, cantou uma ária inteira de joelhos…mas de costas voltadas para o público. Segundo me dizem, S.Carlos ia rebentando de aplausos. Bechi era um excelente actor, emprestando às personagens interpretações fantásticas. Infelizmente, há poucas gravações em dvd. Eu tenho uma “Traviata” com Anna Moffo e Bonisolli, com Bechi no velho Germont, já em fim da carreira, mas onde ainda se pode apreciar a sua arte. Nos anos 50 a sua voz tornou-se “anasalada”, mas nem assim Bechi deixou de cantar. Nunca é fácil aceitar o fim.
Sendo o pai tenor e a mãe contralto, que destino estaria reservado à jovem Christa? Eugenie Besalla-Ludwig, a mãe, chegou a ser primeira figura na Ópera de Aachen, no período em que Karajan era o maestro residente, e foi com ela que Christa Ludwig estudou. Este excepcional “mezzo”, que nasceu em 1928 na Alemanha, foi soberba em recitais de “lieder”, na ópera, no oratório. Ouvi-la em Schubert, Schumann, Weber ou Mahler é divinal. Foi, enfim, uma figura gigantesca e incontornável. Foi contratada pela ópera de Viena em 1955, onde permaneceu mais de 30 anos. Cantou em Salzburgo de 1954 a 1981, e no MET de Nova York durante quarenta anos. Só uma grande cantora permaneceria décadas nestes palcos. Disse e escreveu em muitas ocasiões que a sua carreira foi decisivamente marcada por três maestros: Bohm, Karajan e Bernstein. É hoje uma reconhecida e procurada professora de canto
Partilho da opinião de que “O Trovador” é uma ópera de linhas melódicas tão bonitas, que desde o princípio ao fim, entra no ouvido e apetece que certas árias sejam bisadas. Razão pela qual é sempre apontada como uma das óperas que qualquer principiante na arte lírica deve ouvir, para aprender a gostar. Juntamente com a “Carmen”, “Rigoletto” e “La Traviata”. Garanto que, ouvida uma vez, não mais deixará de fazer parte da nossa vivência “operática”. Não preencherá os mais exigentes requisitos que qualquer ópera de Wagner, por exemplo, nos impõe, podendo assim, de alguma maneira, enfadar os mais puristas…Mas como este é um blogue “para todos”, não hesito em dedicar-lhe estas linhas. Em dvd, há inúmeras gravações, com os mais categorizados cantores, tornando-se difícil recomendar uma delas. Para mim, e acima de todas, estão Del Monaco – Leyla Gencer – Bastianini. É uma récita fantástica, excelentemente cantada e interpretada. Mas também há Pavarotti com Milnes e Eva Marton, Placido Domingo com Cossotto e Kabaivanska, e ainda, das mais recentes, Jose Cura com Hvorostovsky. Ou seja, não é difícil encontrar uma gravação que nos satisfaça. Em cd o universo amplia-se bastante, e para melhor. E são tantas, mas tantas, as recomendações possíveis, que não me atrevo a adiantar nenhuma, sob pena de omitir uma mão-cheia de preciosidades.
Soprano lírico alemão, Gundula Janowitz notabilizou-se principalmente em Mozart, Wagner, Richard Strauss, (os principais), mas também em Bach, Beethoven e Weber. A sua pronúncia no italiano deixava um pouco a desejar, o que não a impediu de cantar com sucesso a “Elisabetta” do D.Carlo Tinha, no entanto, muito pouco talento como actriz, pelo que é bem preferível ouvi-la do que vê-la… Nascida em 1937, Gundula foi uma das musas de Karajan, que não a dispensou em muitos dos Festivais de Salzburgo nos anos 60.
Há muitos anos, num intervalo de uma “Lucia” no Coliseu, perguntaram-me se conhecia Mado Robin. A resposta foi dada pela minha expressão de desconhecimento total. Dias depois tinha nas minhas mãos uma cassete, que quis ouvir com urgência. E fiquei abismado! Que voz! Mado Robin (1918 – 1960), foi um soprano “ultra leggero”, descoberta para a Ópera pelo barítono Tita Ruffo, de uma nitidez absolutamente extraordinária, que obteve com “Lakmé”, mas também com a “Lucia”, os seus maiores sucessos. Sabem o que é uma “contre-contre-rè”? É a nota mais aguda a que uma cantora pode chegar…Mado Robin chegou. Não há, infelizmente, em Portugal, quase nenhuma gravação com a grande cantora, mas a “santa” Internet permite colmatar esta lusa deficiência. Recomendo a “Lakmé” de 1952, mas qualquer outra gravação que consigam, vale a pena!