quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

"La Bohème"


Muitos pares de soprano e tenor cantaram “La Bohème” de Puccini.
Muitos interpretaram esses papéis de forma exemplar, atingindo patamares de excelência.
A lista seria fastidiosa por tão extensa.
Mas, de entre todas, e já ouvi muitas, há uma gravação que suplanta, de longe, qualquer outra.
Refiro-me a Mirella Freni e Luciano Pavarotti, com a Filarmónica de Berlim sob a regência de Karajan.
Para mim, essa é “a” Bohème.
Com eles, há uma segunda versão gravada já nos anos oitenta, mas a primeira é bem superior, dado que estavam no apogeu das suas capacidades vocais.
Parece que ambos os cantores “nasceram” para Puccini, ainda que tenham cantado com estrondoso êxito muitos outros compositores. Mas se repararem bem, os maiores sucessos de Freni e de Pavarotti aconteceram em óperas de Giacomo Puccini.
Algo mais os une . São ambos italianos, nasceram no mesmo ano (1935) e na mesma cidade (Modena). Sabiam?
Sobre cada um deles farei um post.
A “Mimi” e o “Rodolfo” são interpretações magistrais, que merecem, por si só, um lugar de grande destaque.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

A "Grande"



Até eu estou admirado de ainda não ter referido Maria Callas neste blogue.
Mas é hoje, neste ano em que se perfazem 30 anos sobre a sua morte.
Por quase todos considerado o maior soprano da História, pelo menos desde que há registos sonoros. Restam os “fanáticos” de Renata Tebaldi, mas disso falarei em “post” posterior.
Uma voz única, uma arte de representação fantástica (e sabe-se como isso é fundamental), uma presença em palco fascinante, tudo isso e a sua vida particular, fizeram dela um mito que perdurará pelos tempos fora.
Tem 52 óperas gravadas, mas infelizmente poucos registos em DVD.
É quase injusto distinguir os seus papéis, mas deixo apenas uma menção a “Norma”, até hoje inultrapassável, na minha opinião.
A cantora só uma vez esteve em Portugal. Cantou “La Traviata” em S.Carlos em 1958, ao lado de um então jovem tenor espanhol, Alfredo Kraus, que depois se tornaria presença constante em Lisboa, até ao fim da sua carreira.
Da cantora tudo se sabe. Da mulher bem menos. E o sucesso da primeira, nem sempre andou em paralelo com a felicidade da segunda.
Foi Callas a autora das seguintes frases, que revelam bem que, para além da artista, estava uma mulher atenta e com discernimento:

“Não sou um anjo nem pretendo ser. Esse não é nenhum dos meus papéis. Mas também não sou o diabo. Sou uma mulher e uma artista séria, e como tal gostaria de ser julgada”

“Não preciso de dinheiro, trabalho pela Arte”

“Os amigos verdadeiros são muito especiais, mas temos de ter cuidado, porque muitas vezes pensamos que temos um amigo feito de pedra e de repente apercebemo-nos que é feito de areia”

“Nasce-se ou não artista. E é-se artista mesmo se a voz fraqueja. O artista fica lá sempre”

“A minha visão fraca traz-me uma vantagem, não consigo ver o público a coçar a cabeça enquanto me entrego completamente ao meu papel e dando tudo o que tenho”

“Preparo-me para os ensaios como me prepararia para o casamento”

“No palco, estou na escuridão”

“Primeiro perdi a minha voz, depois a minha figura, e agora perdi Onassis”

Na verdade, para uma cantora como Callas, perder a voz e depois a grande paixão da sua vida, deve ter sido tremendo.
Decisivo e determinante, para o que sucedeu naquela manhã, em Paris.
Estávamos em 1977 e Maria Callas tinha 54 anos.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Combinação perfeita?


Dirigindo a Orquestra Sinfónica de Londres, pela primeira vez como Maestro principal, Valery Gergiev não deslumbrou. Não conseguiu retirar da Orquestra tudo o que ela tem para dar, e é muito, como se sabe.
Será que S.Petersburg ainda encabeça a mente do grande maestro, que é, hoje em dia, o expoente máximo da regência russa? Londres aparecerá como alternativa, ou segunda escolha?
A interpretação da sonata o “O Rei das Estrelas” de Stravinsky, não fez esquecer a de Pierre Boulez, há uns anos, à frente da Orquestra da BBC.
De seguida a “Scythian Suite” de Prokofiev foi o melhor do espectáculo.
Fechou com o Concerto para Piano e Sopro do já citado Stravinsky, em que o protagonista foi, sem dúvida, o pianista Alexander Toradze.
Uma noite russa.
Gergiev levará algum tempo a adaptar-se à Orquestra, esta a ele, mas dessa combinação de “luxo”, resultará certamente uma união de frutos assegurados.
Talento não falta a ambas as partes.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Final Arriscado


Sendo um dos maiores tenores de todos os tempos, aliando uma voz fantástica a dotes de representação só ao alcance de alguns eleitos, enveredou há anos pela carreira de maestro, nunca deixando de cantar. E como maestro não perdeu os seus créditos.
À medida que os anos foram passando, ficámos com a sensação de que só o voltaríamos a ver nos palcos, regendo.
Engano.
Aos 66 anos, Placido Domingo anunciou que vai cantar o papel principal de “Simon Boccanegra”, que, como se sabe, é para barítono.
Se outro qualquer tenor tivesse estas intenções, o mundo operático torceria o nariz. Desconfiaria. Acharia ousadia em excesso. Mas com Domingo…
O cantor interpretará, em 2009, o papel na Staatsoper Unter den Linden, em Berlim, na Royal Opera House em Londres e no “La Scala” em Milão. Só!...
Acredita-se que será a sua despedida como cantor, após mais de 120 papéis interpretados.
E se for bem sucedido, do que ninguém tem muitas dúvidas, Placido entrará para um lugar na história da Ópera a que muito poucos têm direito.
E merece-o.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Cecilia Bartoli


O grande “mezzo” italiano Cecilia Bartoli não pára de surpreender todos os melómanos. Senhora de uma voz poderosíssima, e simultaneamente com agudos extraordinários e pouco próprios naquele naipe de cantoras, de há muito que Bartoli enveredou por um reportório afastado dos grandes e conhecidos clássicos, por entender que a sua voz se adapta na perfeição a alguns compositores, e também para mostrar ao mundo lírico, obras até aqui quase esquecidas.
Chegou agora a vez de “Semele”, de Handel, em Zurique.
E para ajudar à expectativa, a encenação está a cargo de Carsen, o mesmo que escandalizou muito recentemente a direcção do Scala, com o seu “Candide” de Bernstein.
Bartoli canta, pela primeira vez, numa língua diferente do italiano, e, como é sabido, o papel de Semele destina-se a um soprano. Só uma grande cantora poderia aceitar um desafio destes. Mas como a sua dicção inglesa é perfeita, Bartoli nem pensou duas vezes.
A actuação foi, segundo vários críticos, “espantosa”.
Tocou a Orquestra Barroca de Zurique, que justifica a sua existência tal a quantidade de óperas desse período que a cidade suiça leva à cena, dirigida por William Christie, e à excepção de Charles Workman (“Júpiter”), todos os outros cantores faziam a sua estreia nos respectivos papéis. “Juno”, a rival de “Semele”, foi cantada pelo mezzo Birgit Remmert, que não está ao nível de Bartoli. Isabel Rey, como “Iris”, esteve muito convincente.
Tal como tem acontecido com muitas interpretações de Cecília Bartoli, é natural que daqui a uns meses, apareça o dvd com esta gravação.
Que seja rápido!

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

ROH de parabéns.


Um dos mais prestigiados Teatros de Ópera, a Royal Opera House, de Londres, completa 60 anos de existência.
Foi fundado em 1947, numa cidade quase arrasada pelos bombardeamentos alemães, no mesmo local em que anteriormente já funcionara outra “house” dedicada à lírica.
A primeira ópera a ser ali cantada foi a “Carmen”.
Para comemorar a efeméride, a administração organiza uma exposição muito interessante, na qual se pode admirar, entre vários espólios preciosíssimos, um vestido que Joan Sutherland usou na “Lucrecia Borgia” de 1980, ou outro feito para a “Turandot” de Birgit Nilsson em 1963.
Na exposição, podem ser igualmente vistos muitos testemunhos das presenças naquele Teatro, de Maria Callas, que ali se estreou em 1952 com “Norma”, Caballé, Plácido Domingo, que fez ali o seu primeiro “Otello” em 1980, ou Kiri Te Kanawa, entre muitos outros.
Poucos saberão que os cenários da “Salome” de 1949 foram executados por Salvador Dali.
E todos recordarão a extraordinária “Tosca” de 1964, com Callas e Gobbi. Para muitos, incluindo o autor destas linhas, a melhor de sempre.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Calleja



Joseph Calleja, jovem tenor, conhecido como o “Rouxinol maltês”.
Reclama a “herança” de Caruso, Gigli e Di Stefano.
Em Novembro passado, cantou o Duque de Mântua, do Rigoletto, no Metropolitan, e de tal maneira o fez, que a sua carteira de contractos já vai em 2012.
Há alguns anos, este teatro propôs-lhe o Trovador, mas Calleja recusou, por ainda não sentir maturidade para o papel.
Afirma que Donizetti é, para a sua idade, o compositor ideal, e aquele onde se sente com maior segurança.
Segundo disse, “para cantar não é preciso gritar, até porque bel canto é o beau chant”, palavras importantes, se nos lembrarmos de alguns dos seus companheiros de profissão…

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